28-Lideranca-Maquiavelica-01022018

Liderança Maquiavélica

Por Augusto Gaspar (*)

“Ex-secretário de Estado, com experiência em mediação de conflitos e assessoramento de lideranças. Atuou como diplomata, desenvolveu grande habilidade no trato com pessoas de diversos níveis e um alto poder de influência. Estudioso e pensador político renomado, fluente em vários idiomas, historiador, professor e autor teatral.” Você contrataria um consultor com essas qualificações para ajudá-lo no desenvolvimento de líderes? 

Este é um breve resumo do vasto currículo de Nicolau Maquiavel (1469–1527), cuja obra-prima O Príncipe, escrita em 1515, tem sido recomendada em renomados cursos de desenvolvimento de líderes e gestão. Devido a algumas das ideias defendidas neste livro, o termo “maquiavélico” passou a ser usado para definir aqueles que praticam atos desleais para obter vantagens, manipulando as pessoas. Maquiavel, ao contrário, sempre defendeu a ética na política. 

Embora quase meio milênio tenha se passado desde que Maquiavel registrou suas recomendações, o relacionamento entre líderes e liderados mantém as mesmas linhas básicas, e suas ideias se encaixam muito bem no contexto atual. Em uma das passagens mais conhecidas do livro, Maquiavel discute se o líder (na época, o Príncipe) deve preferir ser amado ou temido. Embora reconheça que a primeira opção é melhor para a reputação do líder, Maquiavel recomenda a este que tente ser ao mesmo tempo amado e temido. Mas, se a duplicidade não for possível, ser temido é a opção mais segura. E exemplifica com o caso de César Borgia, que foi tido como cruel, mas impôs ordem à Romanha. Técnicas para gerenciar mudanças rápidas… 

Guardadas as devidas proporções, outro conselho de Maquiavel pode ser utilizado na difícil hora de demitir: “Quando for preciso executar um cidadão, que haja uma justificativa e uma razão manifesta”, diz. E conclui que, agindo assim, o líder será temido, mas não odiado. Maquiavel aconselha aos líderes que evitem ao máximo ser odiados, e que procurem ser amados. E, para isso, afirma que nada é melhor do que realizar grandes empreendimentos. 

Já encontrou semelhanças com as técnicas usadas por alguns “líderes” que temos por aí? Os conselhos de Maquiavel vão além, por exemplo: procurar realizar as coisas ruins rapidamente e as boas aos poucos, para reduzir o ódio e aumentar o amor pelo líder. No livro podemos encontrar, ainda, conselhos adaptáveis para sucessão, ações em incorporações e aquisições, gestão de equipes, gestão de mudanças, imagem e até governança corporativa.

Mas o principal ensinamento de Maquiavel está na afirmação da condição de liberdade para o pensamento e para as ações, mas sempre pesando suas consequências. Quando aconselha um líder a agir de uma forma ou de outra, Maquiavel o provoca a refletir e pensar nas consequências para a sua reputação antes de agir. E é exatamente isso o que falta para a maioria dos líderes de hoje. Seja por pressão de tempo, de resultados, ou qualquer outra urgência, ações são tomadas diariamente sem que as consequências futuras para a organização e para a carreira do líder sejam devidamente medidas. Nestes 500 anos muita coisa mudou, mas a regra básica da ação e reação continua valendo. Pense nisso antes de sua próxima decisão.


(*) Augusto Gaspar é Diretor da unidade de Professional Services da MicroPower e coordenador da coluna “Desenvolvendo Talentos” desta revista. Comentários e contribuições podem ser enviados para augusto.gaspar@micropower.com.br.
Compartilhe

Categorias

Assine a nossa newsletter

Fique por dentro dos principais temas em gestão, aprendizado e tecnologia do mercado!

Você também pode gostar