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Até quando vamos precisar de cotas?

Por: Sidnei Silvestre

Conhecida como Lei de Cotas (lei nº 8.213, de 1991), o artigo 93 prevê que empresas com mais de 100 funcionários devem ter de 2 a 5% das suas vagas destinadas a pessoas com deficiência, e o não cumprimento desta regra é passível de multa.

Nos últimos 30 anos, foi este decreto quem serviu como referência para que a maioria das empresas que adotaram essa prática, incluísse aos seus times pessoas com algum tipo de deficiência.

Por que é tão importante?

Uma premissa para estimular a criatividade a fim de detectar e resolver problemas, é um ambiente diversificado com pessoas com uma pluralidade de necessidades. Essa situação provoca uma adversidade que depende de busca de soluções que permitam alcançar um considerável aumento de qualidade e rendimento.

Um detalhe importante é que não basta apenas contratar pessoas com diferentes origens, crenças, etnias, classes sociais ou deficiências para que aconteça essa inclusão. São necessárias mudanças significativas em nossa cultura organizacional para aproveitar os vários talentos disponíveis neste grupo de trabalhadores.

Como está o mercado?

Dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) de 2018 apontam que havia cerca de 486 mil pessoas com deficiência contratadas em empregos formais naquele ano, correspondendo a apenas 1% das ocupações no mercado. É um bom número, mas ainda é uma margem inferior de porcentagem da população declarada com deficiência que poderia compor essa faixa de empregados.

As empresas reclamam que não encontram mão de obra qualificada, porém quando disponibilizam vagas para pessoas com deficiência, são para funções que não exigem competências específicas. Um candidato que possui formação acaba não exercendo a atividade para a qual é formado, mas sim uma função com menos expressão, ou acontece até, de não ser contratado por ter uma graduação elevada.

Com estes dados, percebemos que mesmo com todo esse tempo de existência ainda temos muitas empresas que não cumprem a lei. Algumas, por falta de informação, outras porque ainda não foram notificadas pelo Ministério Público do Trabalho sobre a irregularidade e, portanto, não se conscientizaram da responsabilidade social que todos precisam praticar.

Que mudanças precisam acontecer?

Uma significativa alteração deve ser no olhar das empresas acerca da busca pelo total aproveitamento das competências de cada colaborador, oferecendo oportunidades para que ele mesmo possa demonstrar como melhor executar suas tarefas, de acordo com sua limitação, aumentando assim sua produtividade.

No processo de seleção, os profissionais responsáveis pelo recrutamento precisam ser preparados para oferecer alternativas que possibilitem a todos, participar com equidade, como por exemplo, disponibilizando material digital acessível, formato braile, letras ampliadas, áudio ou interpretação em LIBRAS.

É importante também a implantação de programas internos que proporcionem a sensibilização das pessoas, começando pelo engajamento dos gestores e líderes, que serão os principais responsáveis pela propagação da empatia, do respeito e valorização das diferenças necessárias no relacionamento e na execução das tarefas, a fim de proporcionar um ambiente de trabalho agradável respeitando assim a limitação e a capacidade de todos.

Capacitação contínua, também é imprescindível para as pessoas com deficiência, da mesma forma que para as demais, visto que com a possibilidade do trabalho em casa, muitas vezes não há a necessidade de adaptações no cenário físico da empresa para execução das atividades, apenas treinamento.

O caminho ainda é longo, mas a mudança de comportamento já está acontecendo de forma gradativa, e parte tanto das pessoas com deficiência, que estão buscando qualificação, quanto das organizações, que abrem espaços e descobrem muitos talentos nessa massa de gente trabalhadora, dando a esperança de que podemos chegar em um momento em que não será mais preciso força de lei para que esta inclusão aconteça.

O trabalho além de dignificar o homem, também produz riquezas e proporciona uma valorização da qualidade de vida e inclusão a todos independentemente da sua condição física, intelectual ou social.

 

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